segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Verdadeira Feminilidade Radical

Às sombras do que realmente é



A obra Feminilidade Radical: Fé feminina em um mundo feministada autora Carolyn McCulley, é, no mínimo, contraditório em sua essência. O forte apelo feminista é visível no imagético e discursivo do livro, "Feminilidade Radical não é para fracas". A autora faz uso de tudo aquilo que é amplamente criticado numa visão una do todo, do momento histórico e sociológico que nós, mulheres, desfrutamos hoje.

Quanto ao conteúdo, a abordagem da autora é superficial em termos teológicos. Seu discurso, nitidamente para aprazer os olhos de leitores conservadores retrógrados, traz no cerne o conceito de submissão ao homem e, consequentemente, subalternidade feminina:

"A primeira vez que fiz rafting, aprendi uma importante lição... mas não sobre rafting... ou mesmo sobre como sobreviver ao ser lançada em águas agitadas. O que aprendi foi a importância de ser uma boa seguidora. Meu namorado à época gostava muito de ciclismo e rafting, principalmente de andar de caiaque. [...] Quando começamos a descer o rio, Greg virou para mim e disse firmemente: 'Veja, você conseguiria fazer isso se simplesmente parasse de reclamar e me ouvisse. Eu sei o que estou fazendo. [...] Você é que está tornando isso difícil". (McCulley, p. 119).

Tal exemplo é utilizado pela autora para ilustrar o conceito de submissão feminina. Além do pensamento, também secularista de histeria e falta de habilidades expressa no trecho, há uma enorme falta de compreensão do papel feminino instituído por Deus. 

"Em menos de vinte minutos, a noite cairia sobre nós, sobre o rio e sobre a floresta. Tudo estaria preto como carvão. Estaríamos no rio, sozinhos, somente com uma vaga ideia sobre a direção que tomaríamos (para baixo), onde sairíamos (em direção à estrada) e uma longa caminhada de volta para o carro. Quem sabia quais eram os perigos que poderiam aparecer por ali? Ele olhou novamente para mim, olhou para nossos filhos pequenos e depois disse: "Tudo bem!" Começamos a nos mexer. [...] Um erro de nossa parte e a forte correnteza viraria a canoa de lado, a encheria de água e arrastaria nossos filhos rio abaixo noite adentro. Foi maravilhoso. Nós conseguimos. Ele conseguiu. Eu consegui. Superamos o desafio trabalhando em conjunto, e o fato de que a situação exigia tudo o que eu tinha, que eu estava ali com minha família e pela minha família, que eu estava cercada de uma beleza selvagem e reluzente, e que era, bem, um pouco perigosa fez do momento... transcendente." (Em busca da alma feminina - Stasi Elderedge)

O estrondoso contraste nos dois discursos reflete diferentes posições teológicas: se você acredita que a mulher foi criada por Deus, há uma ligação muito mais profunda, um papel fundamental, necessário e insubstituível, numa grande história. A mulher foi criada para refletir uma face da natureza de Deus, assim como o homem. Papeis distintos, porém, à sombra do Criador, de igual valor e importância. 

No entanto, livros como de McCullen apenas reiteram discursos de apagamento.

A superficialidade com a qual a autora lida com verdades teológicas serve para um condicionamento do papel da mulher. Um outro exemplo, McCullen menciona a palavra hebraica ezer para a, amplamente usada, palavra auxiliadora em Gênesis 2.18. Sua conclusão: "palavra hebraica usada mais frequentemente para se referir a Deus ao longo do Velho Testamento. Se Deus, que é obviamente e infinitamente superior a nós, refere a si mesmo, sem embaraços, como o nosso auxiliador, então deveríamos nos orgulhar de usar o mesmo termo." (McCullen, p. 130).

Stasi também escreve sobre o mesmo termo:

"[...] várias tentativas que temos no português são "auxiliadora" ou "companheira" ou a conhecida "auxiliadora idônea". Por que essas traduções são inacreditavelmente fracas, desinteressantes, rasas... decepcionantes? Em todo caso, o que é "auxiliadora idônea"? Que menina sai cantando pela casa: "Um dia, serei uma auxiliadora idônea"? Companheira? Um cachorro pode ser um companheiro. Alter [tradutor do hebraico] está se aproximando quando o traduz como "sustentadora ao lado dele". O termo ezer é usado somente em outras vinte passagens em todo o Antigo Testamento. E em todos os exemplos, a pessoa que está sendo descrita é o próprio Deus, quando você precisa que ele faça algo por você desesperadamente." (Em busca da alma feminina - Stasi Elderedge)

Há, na mulher, algo que somente ela pode prover ao mundo. A gestação, e também o parto,são ilustrações sublimes de faces do feminino, impossíveis de se negar, em qualquer cultura e religião. São atributos ao feminino que descrevem algo muito maior. Assim, a mulher não deve ser definido à sombra do homem, nem tampouco como seu apêndice. Há algo essencial em sua natureza. 

Ao fazer um resgate histórico das implicações do feminismo nos Estados Unidos, instaura-se, também, uma lacuna de conhecimento e de identidade nas leitoras brasileiras, afinal, nós temos uma história que muito se difere dos nossos conterrâneos continental. O fato, por exemplo, da baixa taxa de publicações femininas no Brasil já é algo a ser considerado na equação, reflexo do silenciamento de vozes femininas que se estendeu por muitos anos no país. Entenda-se que, aos poucos, com uma consciência identitária bem formada, o quadro se altera, como já tem se modificado, cito, com grande apreço, a obra da psicóloga brasileira O Resgate do Feminino de Isabelle Ludovico. 

Nesse sentido, quando se lê:

"Durante esse tempo inebriante, à medida que conceitos políticos de democracia e emancipação estavam tomando forma na nova república (estadunidense), as mulheres tinham grande expectativas de que receberiam status legal igual ao dos homens como cidadãs dos Estados Unidos da América. Quando Abigail Adams contemplou toda a retórica política ardente de 1776, ela implorou a seu marido para que não se esquecesse das mulheres. Numa carta a John Adams, em 31 de março, ela fez este apelo: 'Espero ouvir que declaraste independência. [...] desejo que te lembres das mulheres e sejas mais generoso e favorável a elas d que o foram teus ancestrais. Não coloques poder tal ilimitado nas mãos dos maridos. Lembra, todos os homens seriam tiranos se pudessem.'" (McCulley, p. 45).

Deveria ler-se:

"Trágica menina
escondendo a sina
em placidez de água parada.

Trágica princesa
de um reino de dois andares
azuis,
mimada até a ponta das unhas
que se fincariam na pele
do frustrado viver.

Trágica madona
quatrocentista municipal,
hermética,
fugindo a denunciar as lanças cravadas
no alabrasto palpitante.

Trágica três vezes,
três vezes muda,
sem despedida; coragem. (Carlos Drummond de Andrade)

Como um retrato do feminino brasileiro, Drummond expõe a condição trágica da condição da mulher na sociedade patriarcal. Tal condição se estendeu, até os primeiros anos da República (1889), com resquícios, contudo, em pensamentos de homens e mulheres até os dias de hoje. O gritante contraste com os EUA é explícito na data de independência, 1776, em que as mulheres já tomavam consciência política, como expresso na passagem. Por que, ainda, consumimos tanto da cultura, literatura e identidade norte-americana?

É, então, tão somente com uma consciência crítica e política que as mulheres poderão desempenhar o papel insubstituível para o qual foram chamadas. Com voz e coragem.

sábado, 15 de abril de 2017

Vultos escondidos... no Brasil

"A despeito do que possa pensar.... não tenho nada contra pessoas assim como você." Diz a chefe loira, de olhos azuis, que insiste em negar uma promoção a mulher negra que, injustamente, desempenha o papel de coordenadora sem, para tanto, receber ou obter tal título.


"Eu sei... você provavelmente acredita nisso"


Que filme belíssimo! Figurino, trilha sonora, as atrizes... É uma obra de arte para todos aqueles que prezam por um tempo de qualidade, enquanto arte e realidade dialogam no imaginário do ser humano. Além de satisfazer nossa necessidade pela arte, acredito estar diante de um filme que promove (de)formação e experiência psicológica necessárias para não repetir a barbárie do passado. Tudo isso, com uma boa dose de bom humor!

A tradução do título, no entanto, foi o que mais me intrigou.

Indubitável verdade que nos Estados Unidos, a segregação e o racismo sempre foram abertamente praticados na sociedade. Em contrapartida, no Brasil, dissimulou-se, desde a libertação da escravatura, a inserção negra na sociedade. A história oficial não conta que, marginalizados, muitos pediam para continuar a servir os grandes senhores latifundiários da época em troca de comida e moradia.

Mas, hoje em dia, é diferente, não é? Você provavelmente acredita nisso.

Nosso primeiro passo para descolonização "branca e de olhos azuis", é entender que em terras brasileiras, somos todos  miscigenados. Gosto muito de um trecho de Jorge Amado, da obra Tenda dos Milagres, que diz:

 Brancos? Mestre Pedro, não me venha com brancuras na Bahia. Não me faça rir [...]. Quantas vezes já lhe disse que branco puro na Bahia é como açúcar de engenho: tudo mascavo.

Ora, quem, do mais branco dos brasileiros, há de negar sua identidade afro-indígena-portuguesa (ou tantos outros imigrantes que para cá vieram)?

Voltando ao título traduzido do filme: Estrelas além do tempo. Há, aqui, ao meu ver, uma perda semântica, histórica e cultural gritante. O original, em língua inglesa, Hidden Figures, traz não somente a ideia de figuras escondidas, como, mais pontualmente, a palavra Figure remete também a palavra Vulto do Português. Sim, nossas protagonistas serão, poeticamente, as estrelas que contribuíram para corrida espacial americana, no entanto, não adianta escamotear-lhes a realidade: outrora vultos escondidos, hoje, seres históricos de identidades não fragmentadas, mas muito bem constituídas!

Não adentrarei as veredas da discussão de uma sociedade livre de machismo, porque aqui você, também, provavelmente acredita nisso.

woman image
Fonte da imagem: http://data.whicdn.com/images/281332347/large.jpg (Acesso em: 15 Abril 2017).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Eu sou Malala" de Malala Yousafzai e Christina Lamb

A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo talibã




O obra "Eu sou Malala" deveria estar nas diversas listas que circulam nas redes sociais com o tema "Para expandir seu conhecimento de mundo". Adentrar o Paquistão, o vale Swat tão intimamente descrito pela visão da jovem paquistanesa, é uma daquelas experiências literárias que marca qualquer leitor.

A partir do seu discurso na ONU em favor do direito a educação de crianças do mundo todo, Malala Yousafzai recebeu o prêmio Nobel da Paz, em 10 de dezembro de 2014, sendo a mais jovem laureada da história. Além de vários prêmios, a jovem participou de documentários e foi correspondente para um blog. Vale salientar que seu livro chegou a completar 48 semanas na lista de bestsellers do New York Times.

Do nosso cenário pós-11 de setembro de 2001, o ISIS, os refugiados, as crianças de Aleppo, a leitura de "Eu sou Malala" nos leva a perspectiva do marginalizado, daquele que quase sempre tem sua história contada através de um filtro euro falocêntrico que tendencia a ódio e/ou medo. Malala responde a questões de senso comum do tipo "o que é o Islã?", "o que diz o Corão?", "por que as mulheres muçulmanas são obrigadas a se cobrir?" etc. A autora usa de passagens do Corão para questionar a visão do talibã, e, em última instância, defender que não há incompatibilidade entre educação, busca pelo conhecimento e a religião muçulmana.  

Ela retrata os obstáculos não somente a educação de meninas, mas de crianças e adolescentes barrados não apenas pelo talibã, mas também trabalho infantil, casamentos forçados e a pobreza. Para tanto, Malala apresenta uma contextualização histórica do seu país, do surgimento do talibã, da ação norte-americana no país, das guerras e embates civis que o país já participou.

Depois da tarde de 9 de outubro de 2012, quando um homem chamou por seu nome e desferiu três tiros na jovem, ela nunca mais retornaria a sua terra natal. Exilados na Inglaterra, a petição lançada na ONU com o slogan "Eu sou Malala" foi o propulsor da primeira lei de direito à educação no Paquistão. 

A co-autoria da obra, no entanto, amarga-me a leitura. Se, por um lado, temos a história contada por uma voz incomum, por outro, a presença da inglesa Christina Lamb indica uma ocidentalização da história, ou seja, uma adequação ao mercado editorial. Não vou me ater a tal conceito, no entanto, para quem tiver interesse de se aprofundar no assunto, indico a dissertação mestrado de Laísa Bastos, As Estratégias dos Best-Sellers e os Processos de Produção de Autobiografias de Mulheres Muçulmanas.   

E você, o que achou da obra?


"Meus pais nunca me aconselharam a abandonar a escola. Nunca. Embora amássemos estudar, só nos demos conta de quanto a educação é importante quando o Talibã tentou nos roubar esse direito. Frequentar a escola, ler, fazer nossos deveres de casa não era apenas um modo de passar o tempo. Era nosso futuro. [...] O Talibã podia tomar nossas canetas e nossos livros, mas não podia impedir nossas mentes de pensar." (YOUSAFAZI, 2013, p. 156).

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Espera

Esperei a vida sorrir pra mim,
Esperei uma felicidade sem fim.
Esperei uma completude material,
Aguardei uma notícia boa sair no jornal.

Tive esperança da sua avaliação jocosa,
mas restou me minha reação capciosa.
Voltei-me a uma amizade presente,
ou então a um amor bem fulgente.

Tudo que encontrei foram ausências
de pessoas absortas numa vida de intermitências.

Foi então que cansei.
Fui viver.


(Poesia e Fotografia de Jessica Tomimitsu Rodrigues)